Herança biológica de que o homem seria prisioneiro
Este livro é o produto de uma reflexão sobre o darwinismo, mais particularmente dos seus prolongamentos ideológicos, das suas relações com a sociedade. Enquadra-se no problema mais geral dos limites entre a biologia e a ideologia. A oposição clássica egoÃsmo-altruÃsmo, que só terá sentido real na esfera humana, com o darwinismo sapiente e ideológico passou para o centro do debate. E a sociobiologia, que se propõe continuar hoje a grande revolução darwiniana, pretende ter resolvido o dilema proclamando um egoÃsmo ainda mais absoluto, que caracterizaria todo o comportamento social dos animais. EgoÃsmo este que o homem teria recebido como dote fundamental da sua herança biológica, e do qual seria prisioneiro.
Daqui resultou que esta nova biologia evolutiva, sobretudo pela sua utilização abusiva na explicação do ser humano, continuou-se numa ideologia reaccionária, ou pretende servir a esta de suporte e acção.
Em cada época a interpretação da natureza é feita em consonância com as filosofia e interesses das classes dominantes; e depois a imagem construÃdo serve de caução para a mesma sociedade, e de base para a explicação da condição humana. Este livro pretende ser um dilatado argumento, uma discussão em volta deste tema.
(Do «Prefácio»)
G. F. Sacarrão é professor catedrático de Zoologia e Antropologia da Faculdade de Ciências da Universidade Clássica de Lisboa.
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